Você está feliz com a carreira que escolheu?
Ajuste os ponteiros da vida pessoal e profissional
quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

por Fátima Cardeal

 e Romulo Santana

 

Quantas vezes você já passou mais horas no escritório do que na própria casa? Ao viajar nos finais de semana com a família ou amigos, você consegue esquecer dos relatórios, ligações e emails que ficaram para trás? E aquele curso de idiomas que tenta concluir há anos? Já pensou em reservar um tempinho a mais na sua agenda para você mesmo?

“Já que vamos mudar, vamos mudar tudo.” Foi com esse pensamento que Margareth Cardoso, 35 anos, gerente de RH da Air BP América do Sul, decidiu cuidar um pouco mais de sua vida pessoal e familiar em vez de se dedicar quase que exclusivamente ao trabalho, como fazia. Quando se mudou do Rio de Janeiro para São Paulo para facilitar a rotina na empresa, suas atividades pessoais se transformaram.

 

Atualmente, mesmo que tenha de fazer malabarismos, ela consegue conciliar tarefas de mãe – como ir às reuniões escolares – com as responsabilidades de executiva numa multinacional em que trabalha, em média, 12 horas por dia. “Eu tinha um nível de estresse muito alto, minha produtividade era comprometida. Depois da mudança, obtive muitos ganhos”, conta. Para ela, que se considera bastante disciplinada, só está faltando conseguir mais tempo para fazer exercícios físicos. “Já me matriculei e desmatriculei milhões de vezes na academia”, reclama.

 

Entre estímulos e pressões

 

“Temos de levar em conta que trabalhar e realizar atividades pessoais, na maioria das vezes, são ações incompatíveis. Não é possível dedicar, simultaneamente, o mesmo tempo às duas coisas”, diz a psicóloga Giovana Del Prette. A especialista explica que as pessoas tendem a escolher com que intensidade se dedicam mais ao trabalho ou à vida pessoal porque algum comportamento está sendo reforçado, trazendo conseqüências que o mantêm.

 

Por exemplo, a remuneração variável, a participação nos lucros da empresa ou as premiações por cumprimento de metas podem ser fortes estímulos à abdicação ou adiamento das atividades pessoais em detrimento das profissionais. Sem falar nos desafios do trabalho que, por si só, são reforços poderosos.

 

Por outro lado, repreensões e punições para que o profissional “mostre serviço” faz com que ele tenha engajamento mínimo em qualquer atividade fora do espaço da empresa. “Dessa forma, deixa-se de lado o auto-cuidado, a diversão, o lazer, o tempo com a família, os amigos, as viagens e assim por diante”, afirma Del Prette. O comportamento “workaholic”, segundo a psicóloga, também pode se originar na fuga de situações ruins que estão longe do ambiente de trabalho, mas que pressionam o profissional da mesma maneira. “O relacionamento com o cônjuge vai mal, os filhos estão cheios de problemas, uma gastrite surge, os amigos se foram, e o trabalho acaba funcionando como refúgio dessa realidade, ainda mais estressante do que as horas gastas na empresa”.

 

Tempo precioso

 

Parece que a preocupação com a saúde é uma constante entre os profissionais. “O que mais me incomoda é o sedentarismo. A minha vida, por ser muito dinâmica, não me permite criar um vínculo com uma academia”, diz o diretor comercial da BRconnection, Marcelo Negrão, 39 anos. Ele, que é fascinado por esportes de velocidade e corre de Kart em seu tempo livre nos fins de semana, reconhece a importância de dedicar um pouco de tempo para si mesmo. “Essa falta de atividade física é muito ruim, pois reflete diretamente na saúde e, conseqüentemente, no desempenho do dia-a-dia. Estou tentando corrigir este problema”, argumenta o executivo que chega a trabalhar 16 horas nos dias mais atribulados.

 

O cotidiano de um executivo é, reconhecidamente, estressante, especialmente porque ele assume posições que demandam compromisso e dedicação extremos, como é o caso de Davi Brandão, 29 anos, editor do semanário Shopping News e do portal eletrônico do jornal DCI. “Não tenho horário para entrar no trabalho, nem para sair. Atuo até em finais de semana e feriados”, relata. Com isso, falta tempo para ir à academia ou viajar por lazer. Há alguns meses, ele vem adiando uma visita a Buenos Aires para descansar. Enquanto não consegue tempo, ele se distrai com filmes que pega na locadora para preencher os esperados domingos sem correrias.

 

Sustento emocional

 

Fernando Di Trani, 50 anos, é vice-presidente de vendas da Lamina Technologies. Ele mora na Suíça, onde começa a trabalhar às 6h30 da manhã e só pára às 10h da noite. Tudo para dar conta de falar com os clientes dos 64 países que sua empresa atende. “De tanto trabalhar, você acaba confundindo o privado com o profissional”, revela. A mulher dele, que trabalha na mesma empresa, tem um marido dedicado por conta de um pacto que fizeram: não levar trabalho para casa. O que não quer dizer finais de semana sempre livres para o lazer ou para a filantropia, atividade que ele realizava com freqüência no Brasil. Quando está fora do trabalho, suas horas livres são reservadas à esposa. “Aprendi que a família é que nos dá sustentação emocional, e não o trabalho.”

 

 

O que sobra

“Quando as conseqüências só aparecem no longo prazo, controlar o comportamento presente fica mais difícil”, aponta Del Prette. Assim, é importante se questionar se há equilíbrio entre o tempo dedicado a si mesmo e ao trabalho. E se houver prejuízos, descobrir como mudar a situação é fundamental. “Se a empresa quebra, se é preciso mudar de cargo, ou o indivíduo é afastado ou demitido, o que lhe sobra? Uma vida pessoal que ele não alimentou”, enfatiza a especialista.

 

De olho no relógio

 

A psicóloga Giovana Del Prette aponta algumas conseqüências que indicam o desequilíbrio no controle do tempo que o profissional compromete com o trabalho, podendo ser prejudicial a longo prazo:

* Dificuldades em se comunicar com a família; autoridade e respeito obtido via discussões tensas;

* Família afetivamente distante e/ou afetivamente carente;

* Diminuição do conhecimento sobre o dia-a-dia dos filhos, esposa e amigos (você é o último a saber ou descobre os fatos só depois que já ocorreram e foram resolvidos sem sua ajuda);

* Diminuição do número de amigos e da freqüência com que os vê, acompanhado ou não por reclamações sobre sua ausência (“sumido, heim?”) ou por desistência de lhe procurarem;

* Diminuição do conhecimento e/ou participação em atividades não-profissionais de sua preferência, como leitura de livros não-técnicos, ida a cinema, teatro, exposições, esportes etc;

* Sinais de fadiga física (alterações no sono, no apetite e no humor, estresse, gastrite, aftas, dores nas costas, diminuição da capacidade de concentração, entre outras);

 

De acordo com a psicóloga, observar-se é o primeiro passo. Em seguida, é necessário exercitar a capacidade de prever, a partir dos primeiros sinais de problemas, qual tipo de fim pode-se esperar caso esses problemas não sejam solucionados o mais rápido possível. “Uma psicoterapia é valiosa quando houver dificuldades em mudar um comportamento sozinho”, recomenda.

Comentários
Olá, gostei dos comentários, se quiserem ver um desdobramento da entrevista que dei na matéria, o link é http://www.redepsi.com.br/portal/modules/smartsection/item.php?itemid=1435 Nesse link conto mais alguns detalhes sobre a questão. Ainda fico devendo a questão das dicas, são um pouco mais complicadas para listar em um pequeno espaço porque dependem de cada situação e cada problema. Mas se alguém tiver tentado alguma maneira criativa de lidar com o excesso de trabalho, gostaria muito de ler como foi!!! Abraços.
Postado por Giovana Del Prette   em 30/10/2009 - 00:26
Excelente matéria. Apesar de só ler agora, é bom lembrarmos sempre "O que faço aqui e agora fui eu quem criei para minha vida" Só cada um é que pode mudar sua própria vida. Ines Ramos
Postado por ines faraco ramos   em 24/4/2009 - 10:22
Excelente matéria, mas também gostaria que trouxesse algumas dicas para podermos driblar essa rotina estressante, sem prejudicar à carreira e também a vida pessoal. Pois na maioria das vezes sabemos e temos a conciencia disso mas não queremos um médico para sanar tais soluções e sim maneiras de auto nos curar, pois o que precisamos realmente é uma saida para podermos nos realizar profissional e pessoal.
Postado por Dejair Passos   em 11/12/2008 - 08:52
Esta materia veio na hora certo pra mim , nao estva conseguindo enxergar isso, ja estava perdendo minha familia, filhos ruim na escola e distantes de mim, vou pensar melhor acho que tenho que ter m tempo pois ja fazem 6 anos sem ferias na gerencia de Rh de uma industria, obrigado pela alerta
Postado por JOILSON   em 7/12/2008 - 11:52
Uma matéria muito bem explicada, todavia o ser humano entrou em uma corrida que com essas regras e modo existentes acaba levando-o ao fim trágico, conheço pessoas que sofreram ataque cardíaco aos 25 anos e estão impossibilitados de trabalhar, devido a carga de estresse em que trabalhavam. é preciso avaliar com responsabilidade qual é a velocidade adequada para fazer essa caminhada, senão muitas famílias perderam seus hoje campeões. Atenciosamente
Postado por José Sebastião Teixeira   em 5/12/2008 - 09:19
Oi, Honório Sim, você tem autorização para reproduzir a reportagem no teu grupo de RH, desde que mencionada a fonte www.canalrh.com.br e que o texto siga na íntegra, sem edições. grata Marisa Torres gerente de Conteúdo www.canalrh.com.br
Postado por Marisa Torres   em 5/12/2008 - 09:06
Bem, eu esperava mais dessa matéria, que tal a psicóloga dá pelo menos uma solução de imediato para esse problema de falta de tempo, pois li todo o texto esperando um resultado e a única coisa que ela informou foi para procurar um terapeuta.Ela não poderia passar algo do tipo "se você tem 2 hs de almoço, almoce em uma e malhe na outra hora?!" algo que o leitor que está interessado na matéria leia e se sinta intusiasmado e satisfeito com a solução. Obs: perdão pela sinceridade, mas fiquei esperando um resultado melhor no final da matéria. Alguma solução...Pois as consequencias nós já sabemos.
Postado por Rebeca   em 5/12/2008 - 00:19
Ótimo artigo, claro, verdadeiro, focado, muito bem escrito e bastante impactante ao nos mostrar nossa realidade. Parabéns!
Postado por Anuar Mattar   em 4/12/2008 - 19:40
Parabéns, excelente e muito oportuno pelo momento que estamos atravesando. Gostaria de reproduzir no meu grupo de RH na msn com mais de 6.700 profissionais da area, citando a fonte, pode ser?? aguardo e abraços João Honorio
Postado por João Honorio   em 4/12/2008 - 16:07